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Leitura e Escola

RESUMO

O presente trabalho visa demonstrar a importância da pratica de leitura na formação de cidadão críticos capazes de compreender os diferentes textos com os quais se defrontam. O leitor deve ser capaz de a partir de um texto, atribuir-lhe significação relacionando-se a produção a partir de sua leitura. O que se nota é que o conhecimento disponível a respeito da leitura é caracterizado por uma concepção equivocada, onde se resume ao processo mecânico de identificar letras e transformá-la em som. Em função disso, a escola vem produzindo grande quantidade de leitores capazes de codificar qualquer texto, mas com enorme dificuldade para compreender e interpretar o que tentam ler. Diante dessa situação surge a preocupação de se aprofundar a discussão dessa temática, partindo do pressuposto fundamental da inquietação que envolve a falta da prática da leitura nas séries iniciais das escolas públicas ou particulares. Que condições a escola oferece? Em que pressuposto teórico o projeto político-pedagógico se baseia para trabalhar essa temática? Como está posta a questão da leitura para o currículo escolar? Qual o enfoque para a prática de leitura na formação de leitores que compreendam os diferentes textos com os quais se defrontam. São esses os questionamentos que se pretende apresentar aqui.

 

Palavras chave: 1- Leitura;  2- Transformação;  3- Autonomia.

 

INTRODUÇÃO

A idéia de leitura é normalmente restrita ao livro, ao jornal, lêem-se palavras, e nada mais, diz o senso comum. As ciganas, contudo, dizem ler a mão humana, e os críticos afirmam ler um filme. O fato é que, quando escapa dos limites do texto escrito, o homem não deixa necessariamente de ler. Lê o mapa astral, o teatro, a vida – forma a sua compreensão realidade. Ler é antes de tudo, descobrir e expandir horizontes, porém, ler apenas como decifrar dos sentidos dos signos parece automatismo.

Deve ser encarado como um ato de prazer instigado desde a mais tenra idade por pais, professores e meios de comunicação, levando as crianças a ludicidade necessária a fim de que o gosto pela leitura esteja inserido naturalmente no cotidiano e jamais como obrigação.

No Brasil, infelizmente, lê-se pouco. Normalmente ocorre por obrigatoriedade nas escolas, pois exemplos de casa são raras exceções. Essa leitura escolar está distanciada da realidade da experiência pessoal. Daí que ao chegar à vida adulta a maioria esqueceu há tempos o gosto por esse hábito e a probabilidade de tal fato se repetir de geração em geração, é real. O hábito de ler, formado desde cedo, é encarado com satisfação. Deste modo, ter maior discernimento crítico parece conseqüência, já que a necessidade será expandir-se sempre, crescer intelectualmente.

Diante dessas situações surge a preocupação de compreendermos o papel da escola quanto à formação de um cidadão mais crítico e capaz diante dos textos que ele recebe para seu uso na vida cotidiana. É preciso saber ler, interpretar a realidade, expressarem-se oralmente e por escrito suas idéias, pensamentos e sentimentos expondo-os adequadamente em situações criadoras, onde o aluno use efetivamente a leitura, a refletir continuamente sobre esse uso e avaliar seu próprio desempenho.

É preciso oferecer condições para que os alunos leiam não apenas durante atividades na sala de aulas ou apenas livros didáticos solicitado pelo professor e sim o trabalho com a diversidade textual. Só assim poderá formar um bom leitor onde possa compreender o que lê; que possa aprender ler também o que não está escrito; que estabeleça relações entre o texto lido e outros textos; que consiga justificar a validar a sua leitura a partir da localização de elementos discursivos.

 

REVISÃO LITERÁRIA

Quando se fala em leitura, temos logo na mente alguém lendo jornal, revista, folheto, mas, o mais comum é pensarmos em leitura de livros. E quando se diz que uma pessoa gosta de ler, “vive lendo”, talvez seja rato de biblioteca ou consumidor de romances, historias em quadrinhos, fotonovelas. Se “passa em cima dos livros”, na certa estuda muito.

Sem duvida, o ato de ler é usualmente relacionado com a escrita, e o leitor visto como decodificador da letra. Bastará, porém, decifrar palavras para acontecer à leitura? Como explicaríamos a expressões de uso corrente “fazer a leitura” de um gesto, de uma situação; “ler a mão”, “ler o olhar de alguém”, “ler o tempo”, “ler o espaço”, indicando que o ato de ler vai além da escrita?

Se alguém na rua dá um encontrão em outra pessoa, sua reação pode ser de mero desagrado, diante de uma batida casual, ou de franca defesa, diante de um empurrão proposital. A resposta dada a um incidente assim, revela o modo de lê-lo. Outra coisa: às vezes passam os anos vendo objetos comuns, um vaso, um cinzeiro, sem nunca tê-los observado direito, os mais diversos, e de repente, se encontram diante do objeto, como se fosse algo totalmente novo. O formato, a figura que representa, seu conteúdo passam a ter sentido, melhor, a fazer mais sentido.

Só então se estabelece uma ligação efetiva com esse objeto. E então considera-se a sua beleza ou feiúra, o ridículo ou a adequação ao ambiente em que se encontra o material e suas partes. Pode-se mesmo pensar a sua historia, as circunstâncias de sua criação, as intenções do autor ou fabricante ao fazê-lo, o trabalho de sua realização, as pessoas que o manipulam no decorrer de sua produção, e depois de pronto, aquelas ligadas a ele e as que ignoram ou a quem desagrada. Pergunta-se mesmo o motivo pelo qual não se viu isso antes; às vezes tais questionamentos ocorrem por um segundo, noutras são duradouros, mas dificilmente volta-se a olhá-lo da mesma maneira, não importa com que intensidade.

O que aconteceu? Até aquele momento o objeto era apenas algo mais na parafernália de coisas ao redor, com as quais se têm familiaridade sem dar atenção, porque não dizem nada em particular. De repente se descobre um sentido, não o sentido, mas  apenas  uma  maneira  de  ser  desse  objeto que provocou uma ou outra reação, um modo especial de vê-lo, enxergá-lo, percebê-lo, enfim, pode-se dizer que afinal foi possível o Vasco ou o cinzeiro. Tudo ocorreu talvez de modo casual, sem intenção consciente, mas porque houve uma conjunção de fatores pessoais com o momento e o lugar, com as circunstanciais.

Isso pode acontecer também com relação a pessoas com as quais se convive, com ambientes e situações cotidianas, causando um impacto, uma surpresa, até uma revelação. Nada de sobrenatural. Apenas os sentidos, a psique, a razão responderam a algo para o que já estavam potencialmente aptos e só então se tornaram disponíveis. Será que é assim também que acontece com a leitura de um texto escrito?

Com freqüência contenta-se, por economia ou preguiça, em ler superficialmente, “passar os olhos” como se diz, não acrescentando ao ato de ler algo nada mais além do gesto mecânico de decifrar os sinais. Sobretudo se esses sinais não se ligam de imediato a uma experiência, uma fantasia, uma necessidade. Reage-se dessa maneira ao que não interessa no momento, seja um discurso político, uma conversa, uma língua estrangeira, uma aula expositiva, um quadro, uma peça musical, um livro.

E a tendência natural é ignorá-las ou rejeitá-las como se não fizessem parte do contexto em que se vive. Se o texto é visual, fica-se cego a ele, ainda que os olhos continuem a fixar os sinais gráficos, as imagens. Se é sonoro, fica-se surdo. Quer dizer: se não se lê, não se compreende e fica impossível dar sentido a um ou outro elemento porque ele diz muito pouco ou nada para quem o observa.

De acordo com Tufano (Apud Bortolom, et AL), o sentido de leitura está no diálogo com a linguagem onde o leitor passa a atribuir significado – seja escrito, sonoro, seja um gesto, uma imagem ou um acontecimento.  Já a autora Ivete Lara Camargo Walty não se limita somente em atribuir significado, ela vai mais além, pois segundo ela o sentido da leitura está na construção ativa, está no leitor que aciona as informações que possui em sua estrutura cognitiva e, que ao entrar em contato com o texto produzirá sentidos. Ler para ela é construir uma cadeia de sentidos a partir dos índices do texto dado e não se limitar pelo que está nos livros, traduzindo mecanicamente ou repetindo sentidos dados como acabados. É relacionar-se criticamente com sua posição.

Ler. Eis aí um ato repleto de inúmeras implicações e conseqüências, e dependendo de cada um que lê, de motivações, pois até o ato de pegar um jornal diário e dar uma passada rápida com os olhos pelas manchetes requer algum interesse por trás deste simples folhear despreocupado de páginas.

Cada leitor busca aquilo que ele crê que vai saciar o desejo por conhecimento ou apenas por lazer e este objeto desejado muitas vezes torna-se obscuro, de difícil acesso, já que nem sempre se pode incluir a leitura no dia-a-dia.

Quando não é utilizada a informação, seja por desigualdade social, seja por preconceito, ela pode estar negligenciada, relegada a segundo plano, a setores sociais dos quais é parte necessariamente integrante, ou seja, a vida acadêmica. Porém, o que será tratado aqui, mas especificamente será o porque da leitura não estar entre os principais interesses de tantas pessoas e como motivar este batalhão excluído, ou melhor quase excluído, pois essas pessoas pensam não gostar de ler. Ledo engano. Elas foram adestradas durante anos, a começar desde a mais tenra idade, a não apreciarem o livro. Não se deve dizer que não tiveram opção de escolha, já foi escolhido para elas não gostarem e pronto.

Tudo começa no seio familiar, em que os principais exemplos de conduta que serão levados pela vida, estiveram durante rápidos e decisivos anos como em uma exposição de fatos, princípios, comportamentos. É neste ambiente propício para construção da personalidade que se marca indubitavelmente as vontades e os anseios, os desejos e as motivações.

Como uma esponja insaciável e curiosa, esse pequeno aprendiz, age, urge por interação com tudo e todos a fim de reter a maior quantidade possível de informações, conhecimentos, experiências. Se não for alimentado, essa garra por novidade poderá, com tempo, distanciar-se do caminho que leva à leitura, o hábito prosaico e deleitoso de ler que seja um simples gibi, quer seja Camões.

A televisão é uma delas certamente. Requer pouquíssima concentração nenhuma aptidão, qualquer vontade que seja. Pronto, perdeu-se outro leitor e agora o que faz? Motiva-se apresentando o ato de ler com um ato natural, sem dor alguma, ao contrário do que tantas denotam erroneamente, conforme aparece em Tunes (1984, p.53).

O estímulo sistemático à leitura deveria ser política prioritária em países em via de desenvolvimento. Constata-se que no Brasil o hábito de ler não representa uma tradição e, por isso, a  motivação através de técnicas especificas deve ser encarada como um exemplo de estudo e pesquisa de novas modalidades que visem a aproximação do livro com o leitor.

Já, Androni (1986 apud BORTOM, (ET AL, p.11) afirma que “para ler é preciso gostar de ler”.

Fica óbvio que quando não é fomentada, esta prática ou qualquer outra que seja, quando não se tem exemplos vindos dos principais referenciais, no caso aqui o lar familiar e a escola, raramente tem-se um leitor assíduo e interessado em conhecimento.  Raríssimas são as exceções. Adultos que jamais lêem um livro, que passam tempo demais em frente a TV, que pouco discutem assuntos de ordens geral e polêmicos, dificilmente inspirarão outras pessoas a lerem.

E o sistema escolar há muito tem sua parcela de culpa neste panorama. Como denotam Freire (1988 apud Gadotti, 1996), é grande a distância entre o que é lido nas escolas e o mundo das experiências pessoais, o mundo em que todos vivem suas vias, com experiências pessoalíssimas.

Ao estudante, resta a obrigação de ler calhamaços, decorar mera e simplesmente. A vontade pessoal, os gostos de cada um pouco importam. Claro que este quadro está  mudando, apesar da lentidão e dos sempre escusos interesses de quem não deseja ver um Brasil de cidadãos opinativos e críticos.

Então, como existir leitores de opinião própria se tantos não gostam de ler? Claro que fica mais difícil iniciar-se a inserção de uma pessoa depois de adulta ao mundo das letras do que uma criança que já está por natureza apta e pronta para receber tantos ensinamentos e condicionamentos que carregará por toda vida de forma natural.

De fato, quanto mais a leitura estiver fazendo parte do cotidiano de cada um, tanto haverá mais leitores realmente conscientes do que lêem e para quê lêem. Leitores afeitos ao prazer, sempre em prontidão para conhecer outros mundos, outras idéias, em benefícios próprios.

É interessante instigar a criança a ludicidade, as curiosidades pela fantasia, por historias, adaptam ou não, tanto faz, o importante é contá-las ou lê-las aos filhos. Casos ocorridos, lembranças de vida, “causos” passados de geração a geração, tudo é válido. A aquisição rotineira de livros aos filhos prestando atenção nas preferências deles também conta, assim como levá-los a bibliotecas e livrarias, inserindo no dia-a-dia da família este hábito salutar, uma vez que o contato com este mundo comente ajudará e muito para os costumes familiares caminharem em direção ao conhecimento.

É crucial saber que a criança deve ter as escolhas próprias respeitadas. Com o gerenciamento dos pais obviamente. A partir do que Silva (1981, p. 42) escreve quando diz que “leitura é uma atividade essencial ainda a própria vida do ser humano”, nota-se a importância ao hábito de ler sem restrições. Impossível censurar alguém por ler. Talvez mostrar outros prazeres da vida, como viver em meio à natureza, fazer amizades, amar, praticar esportes, etc., mas jamais censurar. O oposto a isso é que deve ser seguido por todos. Motivar sempre a leitura mostra o tal caminho das pedras. E para isso, os primeiros anos de vida valem outro quase literalmente. O ambiente familiar exerce influência primordial nas construções do futuro leitor.

Para os já em processo de alfabetização, livros de fácil leitura, com historias curtas, impressas em letras grandes, de frases curtas, ou aqueles que brincam com as formas de palavra.

É importante sempre dar razão a fantasia e mostrar as crianças nesta idade contos e historias que não dêem relevância excessiva a moral, assim com a lógica exacerbada e como denota Sandroni (1987, p.19), “os pais devem entrar no jogo [...]; pais e filhos juntos procurarem as repostas, consultando livros”. Os livros devem ficar num lugar da casa de fácil acesso.

Entretanto, há crianças que não gostam de ler e impõe obstáculos à prática de leitura. É necessário não se preocupar em demasia, sem pressionar. Com paciência haverá livros para serem encontrados que vão ao encontro dos interesses da criança.

Mesmo que sejam gibis ou tiras dos quadrinhos de jornais, não importa tudo o que leva ao hábito de ler desde cedo deve ser encarado com naturalidade e jamais com reservas, pois com o tempo esse leitor iniciante passará a desejar mais e novos rumos, o que o fará crescer intelectualmente.

A escola é por um bom tempo na vida do ser humano o segundo lar e a segunda família. Nada mais natural então, que os pais tenham contato estreito e sincero com professores, já que com esta união quem ganha certamente é a criança que será motivada com maior conhecimento de causa tanto em casa como no ambiente escolar. Motivação que precisa ser para qualquer momento propicia a leitura (SOUZA, 1986).

Essas motivações devem ser observadas inerentemente à faixa etária do aluno, pois todos eles necessitam estar sempre em constante interesse pela leitura.

A escola integrada a vida do aluno, deve ter diversos fatores em comum ao cotidiano e ponto crucial. Uma escola desligada do que ocorre no “mundo de fora”, dos anseios e aflições características dessa fase da vida (principalmente a adolescentes), ate mesmo dos modismos culturais, corre seriamente o risco de ficar para trás, ultrapassada, e pior, o de fomentar inúmeros inimigos da leitura.

Por isso, para discutir assuntos de todo a ordem, falar como escreveu Souza (1986, p. 41), é preciso “angariar a simpatia do aluno, oferecendo-lhe oportunidade de resgate de experiências pessoais [...] em sintonia com as experiências do texto”. E quando o aluno ansiar por leituras além daquelas oferecidas pelos professores, que ela surja sem condicionamento, enfim, quando e onde ele bem desejar livremente.

Ler deve ser prazeroso. É base para uma vida toda, ferramenta para enfrentar os desmazelos da sociedade e a escola exerce fator importantíssimo no que se refere a esta construção do ser humano consciente do que o rodeia. Segundo Bortom (Et Al: 1998, p 118), “no Brasil a escola talvez seja o único-lugar onde a grande maioria das pessoas tem contato com o livro”.

Partindo desse pressuposto, tem se em conta a relevância da escola, que não substituirá jamais os pais no que lhe competem, mas auxiliam sem restrições os futuros adultos as múltiplas visões acerca do universo em que vivem, uma vez que a leitura não está ligada apenas a textos, mas também a acontecimentos variados, às diferentes mídias existentes e continuamente em expansão, as estrelinhas dos fatos que se sucedem perante os olhos de cada um e que muitas vezes não é realmente aquilo que aparentemente parecem ser.

Escreve-se para alguém normalmente. Não sendo assim, é apenas terapia pessoal ou um passatempo sem maiores implicações ou conseqüências aparentes. E quando é criado um texto, daquele instante em diante aquelas linhas serão do mundo, de todos, e a cada um que lê cabe intrinsecamente a transformação da lógica, do conteúdo, da razão de ser da obra em si. Conhecendo e aprendendo, o indivíduo através da decifração da escrita amplia horizontes consideravelmente, assim como adiciona possibilidades a um texto.

Esse ato descrito acima não é nenhum demérito a um escritor ou jornalista, pelo contrario, é a prova que tais escritos levaram a Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina discussões e as outras interpretações, enfim, o que se propõe é uma leitura crítica e consciente, nunca passiva.

Na visão de Tufano (198 apud Bortom ET AL) “um texto não traz declarado o seu sentido; é o leitor que no diálogo com linguagem passa a atribuir significado [...]. neste sentido crítico, não podemos ler pelos outros [..]; o ato de ler é solitário [...]. não há leitura autêntica sem  a marca do leitor”. O leitor torna-se seletivo, escolhe, decide o que é útil.

O caminho desse processo a criticidade inicia-se em casa e é levada adiante na escola (claro, nas escolas que se doam a tal método instigante e essencial ao crescimento intelectual do ser humano). No lar tem-se principalmente, os exemplos dos pais, no cotidiano, em momentos sem maior importância inclusive, pois uma criança que cresce vendo-o sempre entregue a leitura (independente do que está lendo) terá chances maiores de que no seu próprio cotidiano seja formando por toda a vida o hábito de ler. E ler é ferramenta primordial para que o ser humano saiba posicionar-se, ter opiniões próprias, ser crítico, conforme tantos autores já louvaram.

Pena que a grande maioria das escolas brasileiras do ensino fundamental e médio não exerça essa prática com afinco, trilhe o caminho mais fácil, burocrático e desestimulante. O contrário é dispor e usar do recurso que a leitura revela a fim de ter como arma na luta contra a alienação e a massificação. Isso significa lutar em prol de cidadãos originais e autênticos, que concebam suas próprias linhas de raciocínio, seus próprios pensamentos, que sejam únicos, meramente obra do conhecimento adquirido. E ter tal atitude torne-se então necessidade desse seres que aprendem e buscam, contestam e provam o sabor da independência. Sim, essa talvez seja a palavra chave: independência.

Comunicação, apreensão, fixação, compreensão, transformação.

No momento da leitura o leitor está senhor de si e de suas decisões. Como que se coloca em conflito com o texto, o transforma em algo familiar, algo seu. Conforme Silva (1981, p.45) “ler é [...] um modo de existir no qual o indivíduo compreende-se no mundo. Domínio da linguagem, dos conceitos abstratos, das palavras não usuais, eis um desafio hercúleo  para  os  pais  e mestres, porém aqueles que se degustam com deleite e regozijo, e cidadão formados em consciência crítica o são frutos especiais (REVISTA ACB, 2003), de raro prazer para quem planta sementinhas de saber, rega com carinho e liberdade plena. Tomada de consciência que impreterivelmente geram criação, novidades. O leitor parte para a criação de seu próprio texto e segundo Silva (1981, p. 81) “a leitura crítica deve ser caracterizada como um projeto, pois se concretiza numa proposta pensada pelo ser no mundo, dirigido ao outro”.

Enfim, ler liberta, impulsiona as possibilidades de conhecimento a níveis inimagináveis, transformam a consciência do ser humano perante o mundo em que vive, dota o leitor da capacidade de abrir inúmeras portas desconhecidas, instiga ao infinito.

A leitura é um dos últimos recantos da liberdade intelectual. Quem lê cria tanto ou mais que o autor. Com a imaginação solta, o leitor elabora mentalmente os cenários, compõem o perfil do personagem, interpreta diálogos, identifica afinidades pessoais e vive, a seu modo, o prazer e a infinitude das emoções potencialmente contidas no texto.

Quem lê recebe imagens prontas, coloridas, acabadas. Tem de construí-las pelo processo do entendimento e da interpretação. Suas emoções não são pautadas pelas vinhetas da mídia eletrônica que padronizam as emoções do telespectador, sempre passivo, para modelar a opinião pública que interessa aos produtores.

O leitor nunca é passivo. Exercita o tempo todo, os mecanismos psicodinâmicos que fundamentam, estruturam e aperfeiçoam a consciência. Por isso, desenvolve a criatividade, refina a percepção, aprimora o senso crítico e ficam imóveis as manipulações que a comunicação pela imagem veicula como ingredientes de dominação.

A leitura é problematizadora, induz a reflexão, suscita hipóteses, faz pensar. Já a comunicação pela imagem, ao ser utilizada como ferramenta de controle da opinião publica, é a negação do pensamento. Não passa de show visual, cheio de efeitos especiais que despertam a sensação do fantástico, do extraordinário, do instantâneo e promovem a preguiça mental do espectador por meio do deslumbramento programado. E o deslumbramento não pensa, admira. Não critica, assimila. Não forma opinião, repete a que recebe, não reage, absorve. Não cria, não resiste, deixa-se aculturar. Não se afirma, submete-se.

Não por acaso, as sociedades menos desenvolvidas e mais dominadas são justamente  as  que  menos  lêem. São aquelas que admitem a presença do analfabetismo com naturalidade, se é que suas elites não o perpetuam deliberadamente.

Aliás, um dos indicadores de desenvolvimento usados na atualidade é o número de televisores difundidos pelo país. Não é o número de livros publicados ou lidos pelo cidadão. Os grupos dominantes sabem muito bem que a palavra escrita é incontrolável e, portanto libertadora, enquanto as imagens podem ser cientificamente editadas para inibir a liberdade do pensamento. Nesse sentido, a palavra pertence à sintaxe da revolução, enquanto a imagem é a fonte da ilusão conservadora.

A Santa Inquisição não queimava apenas as bruxas e os hereges. Incinerava montanhas de livros em praça pública para que não fossem lidos. Da mesma forma, em nosso país, agentes do governo militares invadiam casas de pessoas consideradas subversivas e apreendiam e destruíam livros cujos títulos e autores integravam a lista dos proscritos do regime. Os jornais escritos foram duramente considerados, quando não empastelados.

Em vez de criarem escolas para alfabetização e estímulo à leitura, optaram pela rede de televisão, concebida como monopólio destinado a subjugar o povo, impondo-lhe novos padrões de consumo e dependência externa.

Nos primeiros momentos houve necessidade de recurso de tropas para sufocar a resistência das gerações ainda formadas pela leitura. Mas, com o passar dos anos, a estratégia de controle pela mídia eletrônica produziu os resultados projetados. As gerações educadas pelos shows domingueiros e pela Xuxa de todas as manhãs foram se distanciando do hábito de ler e se desinteressando da palavra, do pensamento crítico, do vernáculo. A invasão cultural não tardou a nos americanizar, transformando-nos em consumidores da Disney, da violência enlatada, ou do Big-Mac que já tem o sabor dos novos tempos.

A comunicação pela imagem eletrônica é a tropa de ocupação dos tempos modernos. Sua eficiência é indiscutível. O império mais violento da historia da humanidade é mantido e ampliado por meio das imagens cuidadosamente montadas que nos chegam via satélite. O último recanto da liberdade intelectual vai sendo assim tomado de assalto pela ditadura eletrônica. O pensamento humano tornou-se prisioneiro de telas e cabos. Contudo, nos piores momentos de representação nunca se deixou de escrever e ler. Ainda que clandestinamente. E foi, quase sempre, na clandestinidade que se produziram os textos e leitura que transformaram a historia do homem.

“Na prática de leitura de textos”, segundo Lajolo (1985),

 

“há que se considerar, primeiramente, que a leitura é um processo de comunicação entre leitor e autor, mediando pelo texto, e que o ato de ler não é decifrar como jogo de adivinhações o sentido do texto. É, a partir de um texto, ser capaz de atribuir-lhe significação, conseguir relacioná-lo a todos os outros textos, reconhecer nele o tipo de leitura que seu autor pretendia e, dono de sua própria vontade, entregar-se a esta leitura ou rebelar-se contra ela, propondo outra não prevista”.

 

Portanto, a leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de construção do significado do texto, a partir dos seus objetivos, do seu conhecimento sobre o assunto e sobre autor.

Não se trata simplesmente de extrair informação da escrita, decodificando-a letra por letra, palavra por palavra. Trata-se de uma atividade que implica, necessariamente, compreensão na qual os sentidos começam a ser constituídos entes da leitura propriamente dita.

O trabalho com leitura tem como finalidade a formação de leitores competentes e, conseqüentemente, a formação de escritores, de profissionais da escrita e sim de pessoas capazes de escrever com eficácia, expondo suas idéias, pensamentos e sentimentos de forma coerente e adequada em situações criadoras.

O bom leitor é aquele que estabeleça entre o texto que lê e outros já lidos; que saiba que vários sentidos podem ser atribuídos a um texto; que consiga justificar e validar a sua leitura a partir da localização de elementos discursivos.

De acordo com Tufano (apud Bortolom ET AL). “um texto não traz declarado, o seu sentido, e o leitor, que no diálogo com linguagem passa a atribuir significados [...]. Nesse sentido crítico, não podemos ler pelos outros [...]; o ato de ler é solitário. Segundo ele, não há leitura autentica sem a marca do leitor”. O leitor torna-se seletivo, escolhe, decide o que lhe é útil.

Formar leitores é algo que requer condições favoráveis para a prática de leitura, que não se limitam apenas aos recursos materiais disponíveis e sim ao uso dos livros e demais materiais impressos, isso é o aspecto mais determinante para o desenvolvimento da prática e do gosto pela leitura.

Desde os primeiros contatos com o mundo, percebe-se o calor e o aconchego de um  berço  diferentemente  das  mesmas  sensações  provocadas pelos braços carinhosos que enlaçam. A luz excessiva irrita, enquanto a penumbra tranqüiliza. O som estridente ou um grito assustam, mas a canção de ninar embala o sono. Uma superfície áspera desagrada, no entanto, o toque macio de mãos ou de um pano como que desintegram a pele. E o cheiro do peito e a pulsação de quem amamenta ou abraça podem ser convites a satisfação ou ao rechaço. Começa-se assim a compreender, a dar sentido ao que está ao redor. Esses também são os primeiros passos para aprender a ler.

Trata-se, pois de um aprendizado mais natural do que se costuma pensar, mas tão exigente e complexo como a própria vida. Fragmentado e, ao mesmo tempo, constante como as experiências de confronto consigo mesmo e com o mundo.

Segundo Paulo Freire, “ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a sim mesmo: os homens se educam em comunhão, midiatizados pelo mundo”. Parodiando-o e também ousando divergir neste caso, se poderia dizer: ninguém ensina ninguém a ler; o aprendizado é em última instância solitário, embora se desencadeie e se desenvolva na convivência com os outros e com o mundo. Parece exagero, mas nem tanto.

De acordo com a autora Maria Helena Martins, os estudos de linguagem vêm revelando, cada vez com maior ênfase, que se aprende a ler apesar dos professores; que, para aprender a ler e compreender o processo de leitura, não se está desamparado, tem-se condições de fazer alguma coisa sozinho e necessita-se de alguma orientação.

Enfim, dizem os pesquisadores da linguagem, em crescente convicção: aprendemos a ler lendo. Talvez melhor fosse dizer, vivendo.

Quando se começa a organizar os conhecimentos adquiridos, a partir das situações que a realidade impõe e da atuação nela; quando começa-se a estabelecer relações entre as experiências e a tentar resolver os problemas que se apresentam -  aí então está se procedendo a leitura, as quais habilitam basicamente a ler tudo e qualquer coisa. Esse seria o lado bom, otimista e prazeroso do aprendizado da leitura.

A impressão que se tem é que o mundo está ao alcance de qualquer pessoa. Não só é possível compreendê-lo, conviver com ele, mas até modificá-lo à medida que se incorporam as experiências de leitura.

O ato de ler torna-se fundamental em um mundo onde a escrita é vista de maneira positiva e indispensável para a circulação de idéias. O acesso à leitura é considerado  como  algo  essencial,  uma vez que torna possível ao indivíduo a obtenção de benefícios, tais como: aquisição de conhecimentos e aprimoramento cultural, forma de lazer e prazer estético, ampliação das condições de interação e de convívio social.

Vive-se atualmente, em uma sociedade em que poucas pessoas tem acesso à leitura e quando há, ocorre normalmente por obrigatoriedade nas escolas, estando assim condicionado apenas ao ambiente escolar, ou no momento de crise como a separação, a morte de algum ente querido, ou um fato que lhe chame atenção, muitas vezes não há o hábito de ler nem mesmo bula de remédio, muito menos livros de diversos gêneros.

O que se percebe é que escola vem produzindo grande quantidade de leitores capazes de decodificar qualquer texto, mas quando se trata de compreender e interpretar o que tentam ler, a dificuldade é muito grande. O maior descontentamento entre professores é que a maioria dos alunos não gosta de ler, onde demonstram a falta de interesse pelas atividades envolvendo a leitura, onde a negação pela leitura é explícito.

A falta de interesse pela leitura é decorrente de falta de motivação que não tiveram desde cedo de seus familiares, uma vez que o ambiente familiar exerce influência primordial na construção de futuro leitor.

Segundo Souza (1986), as motivações devem ser observadas inerentemente à faixa etária da criança, pois todas elas necessitam estar sempre em constante interesse pela leitura.

De modo geral, nota-se que a leitura é um desafio indispensável para todas as áreas escolares, uma vez que ler é o meio básico para o desenvolvimento da capacidade de aprender e constituem competências para a formação do individuo. Fica claro que o hábito de ler formado desde cedo pode ser um caminho para um bom leitor.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao se propor a discussão acerca do tema da prática de leitura escolar, nota-se que a pratica pedagógica de leitura para a construção de cidadãos críticos capazes de compreender os diferentes textos é um desafio para os profissionais da educação, pois a concepção de leitura está colocada de forma equivocada, onde o que aparece é a idéia de que leitura é algo chato, resumindo-se simplesmente num processo mecânico e estático, ou seja, como um processo baseado na habilidade de identificar letras.

Segundo os estudos realizados por meio de pesquisa bibliográfica foi possível perceber que o conhecimento atualmente disponível a respeito do processo de leitura na escola vem produzindo grande quantidade de leitores capazes de decodificar qualquer texto, mas com grandes dificuldades para compreender o que tentam ler, e que a escola não está preparada para oferecer condições favoráveis para a prática da leitura, uma vez que sem sempre é possível contar com uma boa biblioteca, nem de um acervo de classe com livros e outros materiais de leitura.

Ao trabalhar com essa temática, o projeto político-pedagógico utiliza o ensino baseado nas normas de gramática tradicional, que leva o aluno a substituir sua linguagem por outra mais bem elaborada, por constituir a forma gramatical correta, onde as atividades ficam apenas em exercícios mecânicos de identificação de símbolos gráficos para soletrar sons ou representá-los por escrito, agido assim contrariamente as funções que a escola deveria desempenha.

As experiências dos alunos não são levadas em considerações, visto que, a sua forma de ser não é valorizada, sendo assim considerada incorreta diante do padrão lingüístico escolhido como correto.     O ensino é caracterizado é caracterizado como forma de imitação, onde as gramáticas são trabalhadas de forma isolada, seguindo assim modelos selecionados como corretos e bons.

A leitura deve ser encarada como ato de prazer e ser estimulado o mais cedo possível por pais, professores e meios de comunicação, levando assim a criança a entrar em contato com a prática da leitura a fim de que o gosto pela leitura esteja inserido naturalmente no cotidiano e jamais como obrigações.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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POSSARI, Lucia Helena V. e, NEDER, Maria Lúcia Cavalli. Linguagem. Fascículo 04-05-06. Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá 2005.
Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina Florianópolis, v. 11, n° 1, p. 29-3, Jan/jul. 2006. 37.
Sandroni. L. C. Machado, L. R. Ler em casa. In: - A criança e o livro. 2° Ed. São Paulo: Alica 1987, P. 18-21.
SILVA, E. T. da. Ler é antes de tudo, compreender. In – O ato de ler: fundamentos Psicológicos para uma nova pedagogia da leitura. São Paulo: Cortez, 1981, p. 42- 45.
SOUZA, M. S. D. de. O interesse pela leitura poderá surgir. A conquista do jovem leitor. Florianópolis: EDUFSC, 1986, p. 39-41.

 

AGRADECIMENTOS

A Deus, por que sem ele nada seria possível.
Aos nossos familiares, pela paciência em encarar nossas ausências durante os meses em que duraram as atividades ligadas ao curso.
Ao nosso orientador, pois suas palavras e atos nos convenceram a abandonar o conforto do lar para voltar a estudar.

 

 

Cleide dos Santos Lara - Discente do Curso de Pós-Graduação Psicopedagogia Clínica e Educacional
Paulo Jefferson Marques Porangaba - Discente do Curso de Pós-Graduação Psicopedagogia Clínica e Educacional

Profº José Olímpio dos Santos - Professor Doutorando e Coordenador do Curso de Pós-Graduação Lato Sensu: Psicopedagogia Clínica  e Educacional

 

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